
O Chico Esperto, na movimentada Avenida de Roma, tornou‑se palco de uma interpretação inesperada de um clássico português. Neste restaurante, a Raia à Gomes Sá ganhou destaque pela forma como o chef Bruno Lopes, adepto de técnicas antigas, transforma um prato tradicional de bacalhau numa versão feita com raia, revelando novas leituras de sabores familiares.
A ideia nasceu da vontade do chef de recuperar métodos tradicionais e aplicá‑los a um peixe menos habitual. A Raia à Gomes Sá, adaptada a partir da tradição do bacalhau seco e salgado, surge com uma interpretação que preserva a memória do prato original. A raia chega ao restaurante já curada, num processo inspirado na herança portuguesa, semelhante ao que se faz com o bacalhau, e que hoje raramente se vê na restauração. Depois, é demolhada com tempo e cuidado, para que o sabor natural se mantenha firme, sem excesso de sal. Só então avança para a construção do prato, onde a base clássica — batata cozida, cebola refogada, alho — é trabalhada com equilíbrio e respeito pela matriz tradicional.
O toque final distingue a versão do Chico Esperto: ovo cozido, salsa fresca e azeitonas portuguesas reduzidas a pó, que acrescentam textura e profundidade aromática. A inspiração veio de uma viagem à Ericeira, onde o chef provou raia seca de sabor intenso e textura mais rija. A partir dessa experiência, procurou criar uma interpretação que mantivesse a identidade do peixe, mas com uma delicadeza capaz de surpreender quem se senta à mesa. É neste cruzamento entre técnica e memória que a raia assume, neste restaurante, um papel central, revelando possibilidades que vão além da receita original.
No Chico Esperto, a expressão “Aqui há raia” tornou‑se quase um manifesto. Não apenas pela graça da frase, mas porque traduz a intenção de apresentar um prato que ultrapassa a condição de curiosidade e se afirma como assinatura da casa. A Raia à Gomes Sá mostra que tradição e inovação podem coexistir no mesmo prato, desde que a técnica respeite a história e a criatividade saiba onde entrar. É também uma forma de lembrar que a gastronomia portuguesa continua viva, capaz de evoluir sem romper com as suas raízes — e que a presença da raia num restaurante dedicado à cozinha portuguesa pode revelar novas leituras de um peixe tantas vezes esquecido.
Fiel ao espírito do Chico Esperto, que valoriza a cozinha portuguesa e as suas raízes, esta criação reforça a ideia de que a tradição não está parada no tempo. Evolui, adapta‑se e encontra novas formas de surpreender, mantendo a essência que a define. Na Avenida de Roma, há agora um prato que prova exatamente isso: a tradição continua a mandar, mas há sempre espaço para um toque inesperado.






















