
As borras que ficam depois de um café expresso raramente sugerem uma segunda vida alimentar. Em Odivelas, porém, esse resíduo tornou-se matéria-prima para uma produção urbana que quer ganhar escala. A Nãm Fungi Factory ocupa 2.000 metros quadrados e tem capacidade projetada para cerca de 150 toneladas de cogumelos frescos por ano, triplicando a produção atual.
A unidade resulta de um percurso iniciado há sete anos numa cave em Lisboa, onde a Nãm começou a testar uma ideia simples: aproveitar borras de café e integrá-las no substrato utilizado no cultivo de cogumelos. O projeto cresceu, aproximou-se da Delta Cafés e chega agora a uma fase em que procura demonstrar se um modelo de economia circular pode funcionar com dimensão industrial dentro da malha urbana.
Nãm Fungi Factory leva a economia circular a outra escala
A nova Nãm Fungi Factory deverá permitir reaproveitar cerca de 150 toneladas de borras de café por ano, quantidade equivalente, segundo os promotores, aos resíduos gerados por aproximadamente 15 milhões de expressos Delta. O desafio não está apenas no volume. Passa também por reduzir recursos e aproximar a produção alimentar dos centros urbanos.
Para isso, a fábrica foi equipada para funcionar com energia solar destinada ao autoconsumo e para reutilizar e recircular cerca de 80% da água empregue no processo produtivo. Depois do cultivo, o substrato remanescente pode regressar ao solo, prolongando uma cadeia em que um resíduo do consumo de café encontra uma nova utilização.
A Nãm Fungi Factory surge num território onde agricultura urbana, indústria alimentar e gestão de resíduos começam a cruzar-se. O modelo não elimina o impacto ambiental da produção, mas procura reduzi-lo através do aproveitamento de recursos disponíveis localmente e de processos concebidos para consumir menos água e energia.
De uma cave em Lisboa a uma fábrica em Odivelas
O que começou numa cave lisboeta chega agora a uma unidade onde a capacidade anual poderá passar das atuais 48 toneladas para cerca de 150. A Nãm Fungi Factory prevê ainda a criação de 20 postos de trabalho diretos e ambiciona posicionar-se entre as maiores produções urbanas de cogumelos da Europa.
Natan Jacquemin, fundador da Nãm, recorda que o projeto nasceu para provar que “aquilo a que chamamos desperdício pode ser o início de algo novo”. Sete anos depois, a questão já não é apenas produzir cogumelos a partir de borras de café, mas perceber até onde este tipo de sistema pode crescer dentro das cidades sem perder eficiência.
Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro – Delta Cafés, enquadra a Nãm Fungi Factory como uma aplicação concreta da economia circular. “O que começou com a transformação das nossas borras de café numa nova matéria-prima é hoje um projeto de referência em Portugal e com ambição europeia”, afirma. E acrescenta que a nova fábrica “permite dar escala a uma solução que já demonstrou o seu impacto, tornando-a simultaneamente mais eficiente”.
Nãm Fungi Factory quer testar um modelo replicável
A Nãm integra a Delta Ventures, estrutura de aceleração e incubação de startups do Grupo Nabeiro criada em 2020. Essa ligação dá ao projeto acesso a uma matéria-prima abundante — as borras provenientes do consumo de café — e coloca a fábrica perante uma oportunidade pouco comum: transformar um fluxo regular de resíduos num elemento de uma cadeia alimentar urbana.
Na inauguração estiveram a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, o presidente da Câmara Municipal de Odivelas, Hugo Martins, Rui Miguel Nabeiro, João Manuel Nabeiro e Natan Jacquemin.
Sete anos de experiência dão agora à Nãm Fungi Factory uma base sólida para crescer com maior eficiência e escala. A nova unidade em Odivelas traduz essa maturidade num projeto capaz de produzir mais, reaproveitar mais recursos e reduzir o impacto por quilo produzido. Com uma capacidade projetada para cerca de 150 toneladas anuais, a ambição de se afirmar entre as maiores produções urbanas de cogumelos da Europa deixa de ser apenas uma intenção: passa a assentar num modelo já testado, afinado ao longo do tempo e preparado para uma nova dimensão.





















