
Na Vidigueira, a mesma vinha velha dá origem a dois vinhos com identidades próprias. O Olho de Mocho regressa com o Branco 2025 e o Tinto 2024, novas colheitas da Herdade do Rocim que partem de uma parcela onde convivem castas brancas e tintas e procuram traduzir, por caminhos diferentes, o caráter daquele lugar no Alentejo.
A ideia de partida é pouco habitual: em vez de construir cada vinho a partir de uma escolha prévia de castas, o projeto começa na vinha. “O mais interessante no Olho de Mocho é que não começamos por escolher as castas para construir os vinhos. Começamos pela vinha”, explica Pedro Ribeiro, enólogo e CEO da Rocim.
Olho de Mocho entre Antão Vaz e castas tintas
No Branco 2025, a Antão Vaz assume o centro da composição. Casta historicamente ligada à Vidigueira, é trabalhada com o objetivo de preservar frescura e precisão, sem perder textura e profundidade. O resultado procura mostrar uma expressão da parcela em que a variedade surge integrada no contexto de uma vinha antiga, e não isolada como exercício de casta.
O Tinto 2024 segue outra leitura. Trincadeira e Alicante Bouschet formam a base de um vinho em que a frescura e a elegância convivem com estrutura e complexidade. No Olho de Mocho tinto, o contraste entre as duas castas é usado para construir equilíbrio, mantendo a ligação ao perfil da vinha que lhes dá origem.
Essa relação entre as duas referências é um dos elementos mais interessantes do projeto. O branco e o tinto não procuram parecer-se, nem obedecer a uma fórmula comum. Partilham antes uma origem e uma forma de olhar para a vinha, deixando que cada combinação de castas conduza a um resultado próprio. A diferença entre ambos passa, por isso, a funcionar como uma chave de leitura da parcela e não como simples oposição entre duas categorias de vinho.
Uma leitura da Vidigueira com 18 anos de percurso
A história do Olho de Mocho acompanha o percurso da Herdade do Rocim na Vidigueira, onde a equipa tem vindo a aprofundar o trabalho parcela a parcela. A atenção ao solo, à exposição e ao comportamento das castas permite construir vinhos com perfis diferenciados dentro de um mesmo território.
Pedro Ribeiro resume essa evolução numa ideia simples: “Inovar no vinho nem sempre significa procurar o que é novo. Muitas vezes significa olhar de outra forma para aquilo que já temos.” É nessa lógica que o projeto procura retirar novas leituras de uma vinha conhecida sem transformar a novidade num fim em si mesma.
Na adega, a abordagem é de intervenção contida. A vindima é manual, com seleção no campo e à entrada da adega, procurando preservar a qualidade da matéria-prima e reduzir operações que possam sobrepor-se à expressão das uvas. A filosofia de mínima intervenção surge, assim, como complemento do trabalho realizado na vinha e prolonga, na vinificação, a atenção colocada na origem.
Duas colheitas, dois perfis
Com o Olho de Mocho Branco 2025 e o Tinto 2024, a Herdade do Rocim apresenta duas colheitas que colocam o foco no contraste entre castas e estilos. O branco chega ao mercado com um preço recomendado de 18,48 euros, enquanto o tinto surge com um valor de 26,70 euros.
Os dois vinhos mostram como uma única parcela pode gerar respostas diferentes sem perder coerência. No Olho de Mocho, a identidade não depende de aproximar os perfis do branco e do tinto, mas de manter reconhecível a relação entre vinho, vinha e território.
É essa ligação à Vidigueira que fecha o círculo: duas colheitas, três castas e uma vinha velha interpretada em registos distintos. O Olho de Mocho encontra aí a sua unidade — não na semelhança entre os vinhos, mas na origem que ambos partilham.






















