
O primeiro acorde de “Marechera” tratou de acabar com a espera. Nos Jardins do Casino Estoril, o palco circular estava rodeado por uma plateia que aguardava Ivete Sangalo. Quando a cantora entrou em cena, a noite ganhou imediatamente outro andamento. O calor de setembro ainda se fazia sentir, mas já ninguém estava interessado em ficar quieto.
Perto das 19h, a baiana deu início à primeira apresentação internacional de Ivete Clareou. Durante quase quatro horas, samba, pagode, clássicos brasileiros e canções da própria artista cruzaram-se num espetáculo pensado para aproximar palco e plateia.
Ivete Sangalo estreia o projeto em Portugal
A chegada de Ivete Clareou ao Estoril tinha um significado particular. Depois das apresentações no Brasil, Portugal foi escolhido para a estreia internacional de um projeto construído à volta do samba e das memórias musicais de Ivete Sangalo.
“Quem me conhece sabe o que estou sentindo agora, neste momento, realizando esse projeto que se tornou a menina dos meus olhos: o Ivete Clareou”, afirmou a cantora, sublinhando a importância de levar o espetáculo a um país com o qual mantém uma relação de longa data.
A escolha não surgiu por acaso. Ivete começou a atuar em Portugal em 2004 e, ao longo das últimas duas décadas, foi construindo uma relação próxima com o público português. Desta vez, regressou com uma proposta diferente da dos grandes concertos de estádio e festivais que fazem parte da sua carreira.
O palco 360 graus colocado no centro dos jardins do Casino, alterou a lógica habitual do espetáculo. Não havia uma única frente para a qual a cantora tivesse de se virar. O público estava em redor e Ivete podia circular, aproximar-se e mudar constantemente o ponto de contacto com a plateia. A estrutura foi pensada para reproduzir o ambiente de uma roda de samba.
Ivete Sangalo entre clássicos e memórias do samba
O repertório começou por revelar a matriz musical do projeto. Depois de “Marechera”, chegaram “Curtindo a Vida” e “Água de Chuva”, de Beth Carvalho, esta última acompanhada em coro pelo público.
A escolha das canções ajudou a definir o tom da noite. O espetáculo não se limitou aos êxitos associados à carreira da cantora. Havia espaço para nomes, ritmos e composições que fazem parte da história do samba e do pagode brasileiro.
É também aí que surge Clara Nunes. O projeto nasceu inspirado pela cantora mineira, uma das primeiras referências musicais de Ivete. “Clareou” remete precisamente para Clara e para uma canção que marcou a memória da artista desde a infância.
A própria Ivete explicou que o espetáculo não pretende ser um tributo convencional a Clara Nunes, mas partir da influência que a sua música teve na sua formação. Essa ligação tornou-se evidente nas escolhas musicais e na forma como o concerto percorreu diferentes momentos do samba brasileiro.
Ivete Sangalo deixou espaço para o improviso
A estrutura circular também favoreceu uma atuação menos presa a uma sequência rígida. Ao longo da noite, músicos juntaram-se à cantora em diferentes momentos, criando novas dinâmicas no palco e alterando o ritmo da apresentação.
Depois, Ivete retomava o centro da cena e continuava a conduzir o espetáculo. Falava com o público, brincava, lançava provocações e recebia respostas em coro.
A proximidade era uma constante. Em vez de permanecer fixa num ponto do palco, a cantora aproveitava o formato circular para se deslocar, aproximar-se da plateia e transformar cada lado do recinto numa nova frente de atuação.
À medida que a luz natural desaparecia dos jardins, a música ocupava cada vez mais espaço. Havia quem acompanhasse cada verso, quem dançasse e quem respondesse às deixas da cantora. A relação entre Ivete e o público tornou-se parte integrante do espetáculo.
Ivete Sangalo acelera até ao pagodão
A segunda metade do concerto ganhou outra velocidade. Depois dos momentos mais ligados aos clássicos do samba, o repertório aproximou-se do universo mais festivo de Ivete Sangalo.
O “Medley Pagodão Ivete” levou a plateia para uma sucessão de temas como “Vampirinha”, “Energia de Gostosa”, “Macetando” e “Cria da Ivete”. O ritmo acelerou e o ambiente nos jardins acompanhou a mudança.
A esta altura, já não havia uma separação rígida entre quem estava em palco e quem estava a assistir. O público conhecia as músicas, respondia às deixas da cantora e acompanhava os sucessivos momentos do concerto.
Ivete atravessou quase quatro horas de atuação alternando canto, dança, deslocações pelo palco e interação permanente com a plateia. A exigência física do espetáculo foi acompanhada por uma presença em cena constante, sem deixar cair o ritmo.
Ivete Sangalo fecha a noite no Estoril
Perto das 23h, o concerto chegou ao fim depois de uma sucessão de momentos que levou os Jardins do Casino Estoril do samba tradicional ao pagodão, passando por clássicos brasileiros e pelos grandes êxitos da cantora.
Para Ivete Sangalo, a estreia internacional de Ivete Clareou acrescentou um novo capítulo à relação com Portugal. Para o público, a noite ficou marcada por um espetáculo construído à volta de um repertório que atravessa gerações e por um formato que colocou a cantora no centro da plateia.
O projeto nasceu das memórias de infância de Ivete Sangalo, do samba ouvido na Bahia e da influência de Clara Nunes. No Estoril, encontrou outro cenário e outro público, mantendo a ideia central de uma roda de samba onde palco e plateia partilham o mesmo espaço.
Quando as últimas notas se ouviram nos Jardins do Casino Estoril, o samba já tinha tomado conta da noite. O Ivete Clareou terminou, mas deixou no Estoril a marca de uma celebração brasileira feita à escala de uma noite de verão portuguesa.






















