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O Zé Povinho, de Raphael Bordallo Pinheiro, celebra 150 anos e continua a ser um espelho dos portugueses

Criado por Raphael Bordallo Pinheiro em 1875, o Zé Povinho celebra 150 anos e continua a refletir, com humor e ironia, os portugueses e as suas contradições.

Peça "Zé Modernaço", da Bordallo Pinheiro, criada para celebrar os 150 anos do Zé Povinho
O Zé Povinho ganha uma nova interpretação da Bordallo Pinheiro para assinalar os 150 anos da personagem criada por Raphael Bordallo Pinheiro.

Se Raphael Bordallo Pinheiro regressasse hoje, talvez nem precisasse de procurar muito. O Zé Povinho estaria de olhos no telemóvel, a discutir um penálti nas redes sociais, a buzinar num engarrafamento ou a prometer, entre um café e outro, que “para o ano é que vai ser”. Mudaram os cenários, mas a personagem continua estranhamente igual.

Criado em 1875, o Zé Povinho celebra 150 anos sem deixar de ser um espelho onde Portugal continua a reconhecer as suas virtudes, os seus defeitos e muitas das suas contradições. Poucas figuras atravessaram tantas gerações mantendo uma atualidade tão surpreendente. Mais do que uma caricatura, tornou-se um símbolo da identidade portuguesa e uma das mais marcantes criações de Raphael Bordallo Pinheiro.

Quem criou o Zé Povinho?

Muito antes dos telemóveis, dos algoritmos e das caixas de comentários, o Zé Povinho já dizia muito sobre os portugueses.

A personagem nasceu a 12 de junho de 1875 nas páginas centrais de A Lanterna Mágica, jornal criado por Raphael Bordallo Pinheiro. O artista procurava retratar, com humor e uma boa dose de irreverência, um povo frequentemente esmagado pelo poder, resignado perante as dificuldades, mas sempre pronto a comentar tudo o que o rodeava.

O sucesso foi imediato. O homem de bigode farto, barrete na cabeça e mãos nos bolsos rapidamente deixou de pertencer apenas aos desenhos de Bordallo Pinheiro para entrar no imaginário coletivo. Tornou-se a voz de quem pouco podia dizer e o rosto de um país que aprendeu a rir de si próprio, mesmo quando havia pouco para celebrar.

Foi também dessa crítica mordaz que nasceu o célebre manguito, um gesto que atravessou gerações e continua a simbolizar o inconformismo, a irreverência e a resistência perante aquilo que parece impossível mudar.

Porque continua o Zé Povinho tão atual?

Ao longo de século e meio, Portugal mudou de regime, de moeda e de costumes. Passou pela Monarquia, pela República, pela ditadura, pelo 25 de Abril, entrou na União Europeia e adaptou-se ao mundo digital.

O Zé Povinho acompanhou todas essas mudanças sem perder a identidade. Talvez porque nunca tenha representado apenas uma época, mas uma forma muito portuguesa de olhar para a vida.

Continua a desconfiar de quem governa, a comentar a atualidade como se estivesse numa mesa de café e a enfrentar as dificuldades com uma mistura de resignação, ironia e esperança. É esse equilíbrio entre crítica e humor que explica porque continua a fazer sentido 150 anos depois.

Se antigamente observava o país da esquina da taberna, hoje percorre as redes sociais, comenta a política, discute futebol e acumula opiniões sobre quase tudo. Mudaram os meios, mas o olhar continua a ser o mesmo.

Do manguito aos algoritmos

É precisamente essa atualização da personagem que inspira o jornalista Luís Pedro Nunes no texto Zé Modernaço, publicado na edição comemorativa dos 150 anos do Zé Povinho.

Na sua leitura, o povo resignado do século XIX deu lugar a um cidadão permanentemente ligado aos ecrãs, alimentado por notificações e discussões sem fim. O velho manguito continua presente, mas já nem sempre se manifesta através de um gesto. Surge muitas vezes num comentário impulsivo, numa publicação partilhada sem reflexão ou numa indignação que dura apenas até aparecer o assunto seguinte.

A provocação lançada por Luís Pedro Nunes resume bem o espírito desta nova leitura: será que mudou o Zé Povinho ou fomos nós que mudámos a forma de olhar para ele?

O Zé Povinho continua a fazer rir… e a incomodar

Também o escritor Rui Cardoso Martins recupera a personagem para recordar que algumas das maiores mudanças do país convivem com hábitos que parecem resistir ao tempo.

No texto Não se espera de quem nasce de barba sem bigode…, descreve um português que reclama dos impostos, passa horas agarrado ao telemóvel, discute futebol com entusiasmo, compra férias a crédito e, por vezes, parece preocupar-se mais com a vida dos outros do que com a sua. O retrato é mordaz, mas nunca deixa de ser profundamente humano.

Ao mesmo tempo, recorda que o Zé Povinho também simboliza a capacidade de resistência, a solidariedade e a forma muito portuguesa de enfrentar as dificuldades sem perder completamente o sentido de humor. Talvez seja por isso que continua a despertar sorrisos, mas também algum desconforto. Afinal, ninguém gosta de se reconhecer demasiado numa caricatura.

O Zé Povinho ganha uma nova interpretação

Os 150 anos desta figura maior da cultura portuguesa são assinalados pela Bordallo Pinheiro com uma edição especial da coleção Figurões, criada pelo caricaturista António Antunes.

A nova peça transporta o Zé Povinho para o século XXI sem lhe retirar a identidade. Continua a observar o país com o mesmo olhar crítico, mas agora rodeado por ecrãs, consumismo, redes sociais e uma realidade que Raphael Bordallo Pinheiro dificilmente poderia imaginar.

Mais do que uma homenagem à personagem, esta interpretação mostra como uma criação com século e meio de existência continua capaz de dialogar com o presente.

Porque continua o Zé Povinho a ser um símbolo de Portugal?

Poucas figuras conseguem atravessar 150 anos sem perder significado. O Zé Povinho conseguiu porque nunca representou apenas uma pessoa. Representou um país inteiro, com as suas virtudes, os seus defeitos e as suas eternas contradições.

Talvez seja esse o verdadeiro segredo da sua longevidade. Nunca foi apenas uma caricatura. Foi sempre um espelho. Um espelho onde os portugueses continuam a reconhecer-se, mesmo quando preferiam olhar para outro lado.

Passaram 150 anos desde que Raphael Bordallo Pinheiro lhe deu vida. Mudaram os governos, a tecnologia, os costumes e até a forma de reclamar. Mas basta olhar para o Zé Povinho para perceber que algumas das melhores caricaturas nunca deixam de ser atuais.

aNOTÍCIA.pt