A Foz do Douro prepara-se para receber uma das mais singulares manifestações da cultura popular portuguesa. O Cortejo dos Trajes de Papel volta a percorrer as ruas da freguesia com um número recorde de cerca de 700 figurantes, numa edição que ganha um significado especial após a inscrição da tradição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
Organizado pela União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, o evento realiza-se no dia 30 de agosto, com início às 10h30, na Rua das Sobreiras. O percurso segue pelo Passeio Alegre e pela Rua Senhora da Luz até à Praia do Ourigo, onde terá lugar o tradicional Banho de São Bartolomeu, um dos momentos mais emblemáticos desta celebração centenária.
Este ano, o Cortejo dos Trajes de Papel inspira-se no tema “Fábulas e Lendas”, reunindo centenas de participantes de diferentes gerações que, ao longo de vários meses, transformam papel crepe em figurinos elaborados manualmente. O resultado é um desfile que alia criatividade, rigor e identidade cultural, preservando uma tradição profundamente enraizada na comunidade da Foz.
Cortejo dos Trajes de Papel reforça valor patrimonial
A inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial representa um marco na história do Cortejo dos Trajes de Papel, reconhecendo uma manifestação cultural que se distingue pela participação da comunidade e pela valorização do saber-fazer artesanal. O reconhecimento evidencia o trabalho desenvolvido ao longo de décadas por associações, escolas, artesãos, costureiras, voluntários e centenas de figurantes que asseguram a continuidade desta tradição.
Para Cláudia Bravo, presidente da União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, esta distinção constitui uma homenagem às pessoas que têm garantido a transmissão deste património entre gerações. “Este reconhecimento é, acima de tudo, uma homenagem à comunidade e a todos os que, há décadas, dedicam tempo, criatividade e talento para manter viva esta tradição.”
A edição deste ano deverá voltar a reunir milhares de pessoas ao longo do percurso, confirmando o Cortejo dos Trajes de Papel como o maior desfile de trajes de papel do país e uma das mais expressivas manifestações culturais da cidade do Porto.
Cortejo dos Trajes de Papel preserva uma tradição centenária
As origens desta celebração remontam ao século XIX, quando a Romaria de São Bartolomeu levava numerosos fiéis até à Foz do Douro. A tradição popular atribuía às águas do mar propriedades protetoras contra doenças de pele, gaguez e outros males, fazendo do banho na Praia do Ourigo um dos momentos centrais da romaria.
A tradição dos trajes de papel surgiu na década de 1930, associada à antiga “Festa do Banheiro”. O primeiro Cortejo dos Trajes de Papel realizou-se em 1952 e ganhou novo impulso a partir da década de 1960, graças ao empenho de Joaquim Picarote, figura marcante da comunidade local. Desde então, a organização passou a ser assegurada pela Junta de Freguesia e, mais tarde, pela União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, que criou o Atelier de São Bartolomeu para preservar esta tradição.
Atualmente, o Cortejo dos Trajes de Papel continua a mobilizar várias gerações na criação artesanal dos figurinos, mantendo vivo um património onde a criatividade, o trabalho manual e o espírito comunitário se cruzam de forma singular. Cada edição representa meses de preparação e um forte envolvimento da população, refletindo uma identidade cultural construída ao longo de décadas.
Com reconhecimento oficial e uma participação recorde, o Cortejo dos Trajes de Papel confirma o lugar que ocupa na preservação da identidade cultural da Foz do Douro e entre as mais singulares tradições populares portuguesas, perpetuando um legado que continua a unir gerações e a enriquecer o património cultural do Porto.



