
MEO Kalorama: A celebração da lusofonia com Criolo, Amaro e Dino
A abertura dos momentos de maior afluência aconteceu no Palco Sagres, com o espetáculo conjunto de Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago. Este projeto baseia-se num registo discográfico homónimo editado este ano, cujo alinhamento foi desenhado para expor as ligações rítmicas entre o Brasil, Cabo Verde e Portugal no contexto do MEO Kalorama.
Em palco, a sobriedade dos arranjos permitiu que cada músico mantivesse a sua identidade sem sobrepor o protagonismo. O pianista Amaro Freitas assegurou uma estrutura assente no jazz contemporâneo, oferecendo uma densidade harmónica que serviu de suporte para as intervenções dos vocalistas.
A escrita incisiva e a cadência falada de Criolo encontraram um contraponto na amplitude melódica de Dino d’Santiago, criando uma alternância constante entre a denúncia social e a celebração rítmica. A inclusión do batuque e de texturas eletrónicas discretas conferiu uma cadência orgânica ao concerto, gerando uma resposta imediata de uma plateia composta por diferentes comunidades residentes em Lisboa.
O MEO Kalorama recebeu a estreia magnética e vocal de Ravyn Lenae em Lisboa
A transição para o Palco MEO fez-se com a estreia absoluta de Ravyn Lenae em solo nacional. A intérprete natural de Chicago contornou a receção expectante do público, que a identificava sobretudo através da circulação digital do single “Love Me Not”, demonstrando um domínio técnico que ultrapassa o formato das produções feitas para redes sociais.
O repertório focou-se nas composições de Bird’s Eye e em novas faixas do R&B alternativo, caracterizadas por arranjos minimalistas e um uso rigoroso dos registos vocais mais agudos. A artista manteve uma postura contida em palco, concentrando-se na execução rigorosa de cada tema perante o recinto principal desta edição do MEO Kalorama.
A precisão executiva e a elegância da cenografia minimalista marcaram a totalidade da sua performance ao início da noite. O concerto acabou por funcionar como um ensaio de contenção estética antes das atuações seguintes, que trouxeram dinâmicas de maior impacto físico e sonoro para o centro do Parque da Bela Vista.
Vince Staples e Lauryn Hill agitaram o Palco MEO Kalorama
Esse impacto surgiu de forma imediata com Vince Staples, que entregou uma das prestações mais diretas e desprovidas de artifícios do dia. O rapper californiano sustentou o espetáculo na crueza das suas rimas e em batidas industriais pesadas, recusando os adereços habituais das grandes produções de hip-hop para concentrar as atenções na mensagem política dos seus textos.
A fechar o alinhamento do palco principal, o regresso de Ms. Lauryn Hill após uma longa ausência dos palcos nacionais concentrou a maior moldura humana da jornada. Acompanhada por Wyclef Jean e pelos filhos YG e Zion Marley, a artista optou por um formato de espetáculo fragmentado, recorrendo a medleys extensos e a constantes alterações de arranjos que transformaram a dinâmica habitual do público no MEO Kalorama.
O concerto dividiu-se nitidamente entre a desconstrução das estruturas originais dos temas do álbum The Miseducation of Lauryn Hill e uma forte aceleração de ritmo na segunda metade. Foi a recuperação do repertório histórico dos Fugees, com a interpretação de clássicos como “Killing Me Softly With His Song”, que garantiu a maior participação e resposta em uníssono de todos os espectadores.
As vibrações eletrónicas ditaram o balanço final no MEO Kalorama
Fora do eixo dos palcos principais, o festival manteve a diversidade através do rock independente dos britânicos Dry Cleaning, caracterizado pela entrega vocal em spoken word e guitarras de matriz pós-punk. A representação nacional contou ainda com a precisão instrumental de Bruno Pernadas, cujo universo pop jazzístico ofereceu um momento de repouso conceptual ao fim da tarde.
As últimas horas da noite foram dominadas pelas correntes da música eletrónica de dança em palcos dedicados, que transformaram a encosta do Parque da Bela Vista num espaço de movimento contínuo e clubbing ao ar livre. O balanço deste segundo dia do MEO Kalorama revelou uma gestão de contrastes estilísticos, fixando as expetativas para a jornada de encerramento, que será liderada pelas guitarras distorcidas dos Deftones.
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