Os destinos autênticos, assentes na identidade, na cultura e nas comunidades locais, estiveram no centro das reflexões do Fórum Vê Portugal, que decorre em Viseu. Num contexto em que os viajantes procuram experiências cada vez mais genuínas e diferenciadoras, especialistas do setor defenderam que a autenticidade deixou de ser apenas um fator de diferenciação para assumir um papel estratégico na competitividade turística e na valorização dos territórios.
A mensagem emergiu de forma clara ao longo da manhã do segundo dia do evento, promovido pela Turismo Centro de Portugal em parceria com o Município de Viseu. Entre os vários temas em debate, destacaram-se a identidade territorial, o património cultural, o storytelling e o papel das comunidades na construção de experiências turísticas capazes de criar ligações emocionais duradouras com os visitantes e reforçar o posicionamento dos destinos autênticos.
O que distingue os destinos autênticos?
O primeiro painel da manhã, subordinado ao tema “Destinos com alma: Cultura, pessoas e identidade na construção de destinos autênticos”, colocou a autenticidade no centro da discussão sobre o futuro dos territórios turísticos.
Moderado por André Gomes, presidente da Entidade Regional de Turismo do Algarve, o debate reuniu José Filipe Torres, especialista em Place Branding e CEO da Bloom Consulting, Nuno Barra, diretor de Marketing e Desenvolvimento de Novos Produtos da Vista Alegre, e Cátia Lucas, coordenadora da Lousitânea – Liga dos Amigos da Serra da Lousã.
Ao longo da sessão, os oradores refletiram sobre a importância crescente da identidade territorial, da cultura e das comunidades locais na afirmação dos destinos. A conclusão foi consensual: os territórios que conseguem preservar a sua singularidade e transformá-la em experiências relevantes estão mais bem preparados para responder às novas exigências dos viajantes.
Para José Filipe Torres, o processo de construção de uma marca territorial deve começar pela compreensão da essência de cada lugar. “O grande trabalho de uma marca de cidade ou de país é, em primeiro lugar, perceber e entender a sua alma. O marketing e a comunicação vêm depois”, afirmou.
A reflexão ganha especial relevância numa altura em que a perceção dos visitantes influencia cada vez mais a escolha dos destinos. A identidade, a reputação e a capacidade de comunicar aquilo que torna um território único assumem, por isso, uma importância crescente na afirmação dos destinos autênticos.
Nuno Barra destacou, por sua vez, os desafios da diferenciação num mercado altamente competitivo, onde territórios e marcas disputam diariamente a atenção dos consumidores. Neste contexto, a autenticidade surge como um fator decisivo para gerar reconhecimento e confiança.
Já Cátia Lucas apresentou exemplos concretos da Serra da Lousã, demonstrando como as tradições locais e a participação das comunidades podem transformar recursos endógenos em experiências memoráveis. O fabrico tradicional do pão, o rebanho comunitário ou a possibilidade de acompanhar um pastor por um dia ilustram a forma como os visitantes procuram cada vez mais experiências ligadas às pessoas e à identidade dos lugares.
Mais do que atrações turísticas, estes exemplos demonstram como os destinos autênticos conseguem criar relações emocionais duradouras, reforçando simultaneamente a valorização territorial e a competitividade dos destinos.
Storytelling transforma destinos e aproxima pessoas
Outro dos momentos mais marcantes da manhã foi a Vê Talk “Portugal inspira, o storytelling transforma”, protagonizada por José Pedro Cobra.
A intervenção centrou-se no papel das histórias na construção de relações humanas e na comunicação dos territórios. Numa época marcada pela transformação digital e pela velocidade da informação, o orador defendeu uma abordagem mais humana, capaz de colocar as pessoas no centro da comunicação.
“É através das histórias que nos tornamos humanos. O storytelling transforma”, afirmou.
A ideia encontra particular expressão no turismo. Atualmente, os visitantes procuram mais do que paisagens ou património. Procuram compreender os lugares, conhecer as suas histórias e estabelecer uma ligação emocional com aquilo que visitam.
Neste contexto, o storytelling assume-se como uma ferramenta estratégica para comunicar identidade, património cultural e valores locais. Ao dar significado aos territórios, contribui para reforçar a sua diferenciação e consolidar a imagem de destinos autênticos.
O programa incluiu ainda outros momentos de reflexão, entre os quais a apresentação do livro “Passear – O Turismo como Caminho para a Felicidade”, de Telmo Martins, e a Vê Talk “Destinos Inteligentes”, conduzida por Roberto Oliveira, dedicada ao impacto da inteligência artificial na atividade turística. Apesar do potencial transformador da tecnologia, a mensagem dominante apontou para a necessidade de equilibrar inovação e dimensão humana, preservando aquilo que torna os territórios verdadeiros destinos autênticos.
Ao colocar a identidade territorial, a cultura, as comunidades locais e o storytelling no centro da reflexão, o Fórum Vê Portugal evidenciou uma das tendências mais relevantes do turismo contemporâneo. Num mercado cada vez mais competitivo, os destinos autênticos afirmam-se como um fator essencial de diferenciação, capazes de criar experiências mais significativas para os visitantes e maior valor para os territórios.



