
Há objetos que desaparecem na areia quase sem serem notados. Redes de pesca abandonadas, pedaços de madeira, boias, plásticos e utensílios do quotidiano acabam por permanecer na linha de costa durante semanas ou meses, testemunhando o impacto da ação humana sobre o oceano. Na Costa Alentejana, parte desse lixo nas praias encontrou um destino inesperado: transformou-se em obras de arte que convidam a olhar para os resíduos com uma nova perspetiva, sem esconder a realidade ambiental que lhes deu origem.
Essa transformação pode ser descoberta na exposição Waste 2 Arte, da autoria do fotógrafo e recoletor Nuno Antunes, patente no Parque Cultural e Regenerativo Casas da Ilha, junto à Praia da Ilha do Pessegueiro, em Porto Covo. Reunindo 18 obras de Fine Art Photography, a mostra resulta de vários anos de recolha de lixo nas praias da Costa Alentejana e propõe uma reflexão sobre a preservação do património natural e a responsabilidade coletiva perante os ecossistemas costeiros.
Lixo nas praias inspira uma nova leitura do território
Cada peça apresentada na exposição nasce de materiais encontrados ao longo da costa. Madeira moldada pelo mar, fragmentos de redes, boias e diversos resíduos marinhos são retirados do seu contexto original e transformados em composições artísticas que revelam formas, texturas e cores inesperadas.
O trabalho de Nuno Antunes procura demonstrar que o lixo nas praias não representa apenas um problema ambiental. Cada objeto abandonado transporta consigo uma história sobre hábitos de consumo, desperdício e impacto humano no litoral. Ao integrar esses elementos em obras de arte, o artista convida o visitante a refletir sobre a relação entre natureza, sociedade e responsabilidade ambiental.
Nos últimos anos, Nuno Antunes tem desenvolvido ações de plogging, prática nascida na Suécia que combina exercício físico com a recolha de resíduos na via pública. Essa experiência de contacto direto com o território serviu de base para um projeto que transforma materiais descartados em expressão artística sem apagar a sua origem.
Lixo nas praias dá origem ao projeto inaugural do parque
A exposição assinala igualmente o arranque do Parque Cultural e Regenerativo Casas da Ilha, um espaço em desenvolvimento na aldeia de Fonte de Mouro, em Porto Covo, inserido no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
Implantado numa propriedade com cerca de 30 hectares, o projeto pretende afirmar-se como o primeiro parque cultural do litoral alentejano dedicado à regeneração do território através da arte, da biodiversidade, da inovação e da participação da comunidade.
Neste contexto, o lixo nas praias assume um significado que ultrapassa a denúncia ambiental. Os resíduos tornam-se matéria-prima para uma proposta cultural que procura sensibilizar para a conservação da natureza e estimular novas formas de pensar a utilização dos recursos.
Durante o processo de desenvolvimento, o parque tem contado com o acompanhamento e o aval do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), reforçando a compatibilidade do projeto com a proteção dos valores naturais da região.
Lixo nas praias em destaque durante o Festival Músicas do Mundo
A divulgação da exposição integra também a programação paralela do Festival Músicas do Mundo (FMM), que decorre com o apoio do Município de Sines. Nos dias 18 e 19 de julho, às 16 horas, realizam-se visitas gratuitas ao espaço, sem necessidade de inscrição.
Após estas datas, a exposição permanece aberta ao público até 19 de setembro, diariamente entre as 16 horas e o pôr do sol.
Ao longo do ano, o Parque Cultural e Regenerativo Casas da Ilha prevê acolher exposições, instalações artísticas ao ar livre, oficinas, atividades para famílias, ações de sensibilização ambiental, experiências gastronómicas e iniciativas culturais ligadas ao território.
Ao transformar o lixo nas praias em obras de arte, a exposição Waste 2 Arte evidencia que materiais aparentemente sem valor podem adquirir um novo significado. A iniciativa revela o potencial da criatividade para despertar consciência sobre a preservação do litoral e demonstra como o lixo nas praias pode tornar-se um ponto de partida para compreender melhor a relação entre o ser humano, a natureza e o futuro da Costa Alentejana.






















