
Há uma imagem que resume a singularidade de Cabrela em setembro: uma roda de samba ao pôr do sol, com a planície alentejana como cenário. É a partir desse encontro improvável que o Alentejo Heritage Festival constrói, entre 25 e 27 de setembro, uma programação dedicada às relações culturais entre Portugal e Brasil.
Na quarta edição, o Alentejo Heritage Festival recebe o Brasil como país convidado e ocupa a vila de Cabrela, no concelho de Montemor-o-Novo, com música, dança, criação contemporânea e manifestações de carácter comunitário. O programa cruza linguagens distintas sem as separar das raízes que lhes dão sentido. A escolha do Alentejo como território deste diálogo acrescenta outra camada ao encontro: de um lado, uma região onde o cante e a vida comunitária fazem parte da identidade local; do outro, expressões brasileiras nascidas de diferentes heranças culturais e sociais.
Alentejo Heritage Festival cruza duas margens do Atlântico
A abertura acontece na noite de sexta-feira, 25 de setembro, com «Uma Varanda para o Atlântico», concerto de Cristina Clara. O fado português encontra o choro brasileiro numa aproximação musical que estabelece uma conversa entre duas tradições com percursos próprios, mas ligadas por histórias de circulação e encontro.
No sábado, a relação ganha uma expressão mais física. Às 18h00, o Cabeço da Igreja Velha recebe «Uma Roda de Samba no Alentejo», pelo Coletivo GIRA. Fundado em Lisboa por mulheres imigrantes, o coletivo desenvolve trabalho em torno da cultura afro-brasileira, da igualdade de género e da dimensão comunitária da roda de samba.
O resultado promete uma das imagens mais fortes do Alentejo Heritage Festival: o ritmo brasileiro instalado na paisagem aberta de Cabrela, ao cair da tarde. A escolha do lugar não é mero enquadramento. A vila torna-se parte da experiência e cria um contraste expressivo entre a escala íntima da roda e a amplitude da planície. Nesse cenário, a música deixa de funcionar apenas como espectáculo e ganha uma dimensão de convivência, coerente com o espírito comunitário associado a esta forma de encontro.
Cante, dança e criação contemporânea
Ainda no sábado, «O Rio na Nossa Rua» junta o músico luso-brasileiro Luca Argel ao grupo Era Uma Vez o Cante. O encontro entre a canção e o cante alentejano aborda temas como vulnerabilidade, masculinidade, afectos e cuidado, colocando em relação duas formas de expressão marcadas pela dimensão colectiva.
A programação prossegue com uma Oficina de Movimento para Famílias, orientada pela coreógrafa e bailarina brasileira Bárbara Faustino, e com «Somos Todos Turistas», intervenção de Gonçalo Ribeiro, conhecido como MAR. A criação contemporânea introduz questões de origem, pertença e passagem, alargando o diálogo entre os dois países.
No domingo, 27 de setembro, o Alentejo Heritage Festival encerra com a Lavagem de Nossa Senhora da Conceição de Cabrela, dinamizada pela Ayô – Associação de Arte & Cultura Brasileira e inspirada na Lavagem do Bonfim, em Salvador da Bahia. A manifestação percorre a vila como gesto colectivo de encontro, pertença e cuidado.
Criado em 2023, o Alentejo Heritage Festival chega à quarta edição com uma característica que ultrapassa a programação: a própria Cabrela participa na construção do acontecimento. Ruas, largos e espaços culturais aproximam artistas, comunidade e público, numa escala em que a cultura pode ser vivida de forma próxima.
É nessa proximidade que o Alentejo Heritage Festival encontra a sua imagem mais forte. Entre Portugal e Brasil, a música e o movimento criam uma ponte que não depende de distâncias geográficas. Em Cabrela, essa ponte ganha forma ao som do samba, do fado, do choro e do cante, com o Atlântico a chegar à planície sem deixar de ser Alentejo. O Alentejo Heritage Festival termina, assim, com uma ideia que atravessa toda a programação: a identidade cultural também se constrói quando diferentes memórias encontram espaço para dialogar.






















