
Há imagens que parecem dizer-nos exatamente aquilo que vemos. Uma paisagem, um objeto ou uma cena quotidiana parecem suficientemente familiares para dispensarem explicações. Mas basta alterar a luz, deslocar o enquadramento ou convocar a memória para que aquilo que parecia conhecido adquira outro significado. É nesse território instável, situado entre o visível e a interpretação, que se desenvolve Au-delà du Réel, a exposição apresentada pela Perspective Galerie no Palacete Severo, no Porto.
Patente desde 2 de setembro e até 17 de janeiro de 2027, Au-delà du Réel reúne trabalhos de Fabienne Houzé-Ricard, Mireille Robbe, Juan Manuel Rodriguez e Madeleine Guiton. A pintura, o desenho, a instalação e a imagem servem aqui diferentes aproximações a uma mesma questão: até que ponto aquilo que vemos corresponde verdadeiramente à realidade que acreditamos conhecer?
A exposição ganha uma dimensão particular ao ocupar os diferentes espaços do Palacete Severo, antiga residência do arqueólogo e arquiteto Ricardo Severo. As obras não surgem isoladas numa sucessão convencional de paredes brancas. Pelo contrário, estabelecem relações com a arquitetura, com a escala das divisões e com a própria atmosfera de um edifício marcado pela memória.
Au-delà du Réel e as diferentes formas de olhar
O ponto de partida de Au-delà du Réel está precisamente na transformação do familiar. Um objeto pode tornar-se estranho, uma imagem antiga pode acolher uma narrativa contemporânea e uma paisagem pode existir simultaneamente como memória e como invenção.
No trabalho de Fabienne Houzé-Ricard, o ninho ocupa um lugar central. A artista tem desenvolvido este motivo como forma primordial, espaço de proteção e território mental. Na série États d’âme, elementos vegetais, objetos e diferentes matérias transformam progressivamente essa estrutura numa espécie de paisagem interior, onde a fronteira entre o mundo físico e o imaginário permanece deliberadamente aberta.
Mireille Robbe parte de um material aparentemente preso ao passado: gravuras antigas. Sobre essas imagens intervém através da cor e da introdução de formas inesperadas, alterando paisagens, arquiteturas e cenas históricas. O arquivo deixa assim de ser apenas testemunho e passa a funcionar como matéria disponível para novas ficções.
Memória, paisagem e perceção
A relação entre aquilo que foi vivido e aquilo que permanece na memória atravessa também a pintura de Juan Manuel Rodriguez. Os seus céus, nuvens e horizontes não procuram apenas reproduzir uma paisagem observada. Resultam de uma reconstrução onde a experiência e a imaginação se sobrepõem, criando atmosferas situadas entre a precisão do visível e uma dimensão próxima do sonho.
É neste cruzamento de linguagens que Au-delà du Réel constrói a sua coerência. Apesar das diferenças entre os quatro artistas, existe uma preocupação comum com os mecanismos que condicionam a forma como interpretamos imagens e espaços.
Essa questão torna-se particularmente evidente no trabalho de Madeleine Guiton. A artista parte frequentemente de fotografias e de situações quotidianas para investigar a influência do enquadramento, dos contrastes, da cor e da luz. Natural ou artificial, ecrãs incluídos, a iluminação altera aquilo que julgamos reconhecer e expõe a fragilidade da perceção.
Au-delà du Réel no Palacete Severo
Apresentada no Porto pela Perspective Galerie, Au-delà du Réel encontra no Palacete Severo um contexto que participa ativamente na experiência da exposição. O percurso desenha-se de sala em sala, permitindo que surjam correspondências inesperadas entre trabalhos, objetos e arquitetura.
Esta relação com o lugar distingue a mostra de uma apresentação convencional. O edifício, instalado no coração da cidade e associado à figura de Ricardo Severo, introduz uma camada adicional de memória num projeto artístico onde o passado é frequentemente revisto, transformado ou imaginado de novo.
Fundada em Paris por Géraldine Banier, a Perspective Galerie desenvolve há duas décadas trabalho com artistas de diferentes origens e percursos, entre nomes consagrados e criadores emergentes. A sua presença no Palacete Severo prolonga essa relação entre exposição, espaço vivido e criação contemporânea.
Em Au-delà du Réel, porém, a arquitetura não funciona apenas como cenário. Torna-se parte de um percurso onde cada mudança de divisão pode também alterar a forma como uma obra é observada.
No final, permanece uma ideia simples, mas exigente: a realidade não é necessariamente aquilo que o olhar reconhece à primeira vista. Entre memória, luz, imaginação e perceção, Au-delà du Réel explora precisamente esse momento em que o familiar deixa de ser inteiramente previsível.
A exposição pode ser visitada diariamente, entre as 10h e as 12h e das 15h às 19h, no Palacete Severo, no Porto, com entrada livre, até 17 de janeiro de 2027.






















